As dificuldades de Ataúro, o destino turístico com mais potencial de Timor-Leste

Ataúro, porventura o local com mais potencial turístico em Timor-Leste, é também um símbolo das dificuldades do setor, onde se acumulam carências estruturais que vão desde a falta de infraestruturas básicas ao isolamento.

Residentes e operadores lamentam-se das sucessivas promessas, por cumprir, de fornecimento elétrico permanente, de melhoria no acesso a água, de estradas, transportes regulares ou de soluções para as dificuldades do isolamento, quando se tem de lidar com a enorme burocracia timorense ou simplesmente ter acesso a dinheiro.

A uma hora de 'water taxi' de Díli -- e a duas e meia no Ferry Nakroma -, a pequena ilha de 14.000 habitantes é já um destino favorito entre a comunidade do mergulho de todo o mundo, com os recifes de corais que a circundam a serem considerados dos mais biodiversos do mundo.

"Aqui a 300 metros já há locais fantásticos para 'snorkel' e um pouco mais à frente para mergulho", conta Vorkel, o proprietário do Ataúro Dive Resort que acolhe a Lusa, numa viagem organizada no quadro da #HauNiaTimorLeste, uma ação de promoção do turismo doméstico, do programa "Tourism For All", da USAid.

Mesmo quem não mergulhe -- vários locais são já zonas protegidas e são por isso ainda mais especiais -- pode deliciar-se a ver baleias, golfinhos e usufruir de uma água cristalina.

Ou simplesmente fazer pouco ou nada, a olhar para o mar, deitado nas redes do Ataúro Dive Resort, ou de bruços na pequena piscina do Beloi Hotel, no alto da montanha mais próxima da vila que lhe dá nome.

Numa ilha que no total deve ter 20 carros -- e alguns tuk-tuks --, os sons do mar são os dominantes, num ambiente que convida ao descanso e ao lazer.

E se a natureza idílica e algo rudimentar e pouco desenvolvida da ilha fazem parte do seu atrativo, o mesmo não se pode dizer das dificuldades que os habitantes locais, os operadores turísticos e finalmente os visitantes continuam a enfrentar.

A começar logo pela partida em Díli, onde continua por construir um pontão para acesso a barcos de recreio.

No passado, antes da crise do aumento explosivo de preços das viagens aéreas para Timor-Leste, especialmente em 2019, e dos efeitos da covid-19 -- o país está praticamente fechado desde final de março --, Ataúro era o principal destino de quem visitava o país.

Visitantes da Europa, da Ásia e dos Estados Unidos marcavam viagens praticamente só para vir mergulhar em Ataúro, e viajantes de mochila às costas ('backpackers') aproveitavam ofertas de alojamento a vários preços, com várias pensões, 'homestays' (alojamento local) e pequenos hotéis.

Porém, primeiro o aumento dos custos das viagens -- especialmente as provenientes da Indonésia -- e agora, a covid-19, reduziram ao mínimo as chegadas de visitantes.

Vorgel, alemão, e a mulher, Sapharahn, do Quénia -- onde se conheceram -- iniciaram o projeto do Ataúro Dive Resort há cinco anos: a primeira cabana serviu de casa e de escritório para acolher grupos de mergulhadores.

A pouco e pouco foram ampliando o espaço e hoje têm vários 'bungalows' virados para o mar.

A ilha, onde só há fornecimento elétrico 12 a 13 horas por dia, está sem luz há mais de duas semanas. No início do ano foram mais de dois meses e meio sem luz, supostamente porque o gerador que alimenta a ilha está estragado.

O 'resort' vive com um sistema solar e um gerador próprio que liga algumas horas por dia, para manter os frios e outras necessidades.

O mercado local é escasso em produtos, tanto pelas dificuldades que agricultores sentem em transportar fruta e verduras em estradas sem condições, como pelo ainda escasso fornecimento de Díli.

No início do ano, Vorkel esteve na Alemanha a apresentar Ataúro num evento de mergulho: teve marcações suficientes para dois meses, que agora teme, devido ao isolamento do país, sejam canceladas em breve.

Tem havido marcações de turismo doméstico -- que aumentaram nas últimas semanas --, mas este ainda é escasso, especialmente por causa da falta de transportes mais regulares que permitiriam estadias mais curtas.

As ligações de barco, que antes eram praticamente diárias, estão agora reduzidas a uma por semana, ao sábado, no ferry que faz a ligação entre Díli e Ataúro e entre a capital e o enclave de Oecusse-Ambeno.

Outras alternativas -- como o WaterTaxi da Compass - são mais caras, especialmente para turistas timorenses.

José Marques, responsável da Empreza Diak -- uma organização não-governamental que trabalha com 250 pessoas em vários pontos da ilha no fabrico de artesanato e no apoio à sua comercialização -- queixa-se praticamente do mesmo.

"Faltam estradas, faltam condições para escoar o produto de mercado", explica à Lusa, notando que ainda é precisa mais formação para a comunidade local.

As estradas entre as várias localidades da ilha estão, em muitos casos, em bastante mau estado, não havendo um único quilómetro alcatroado, o que torna a movimentação difícil e morosa.

A ilha não tem banco e, por isso, obter dinheiro só é possível em Díli, com a fraca internet a dificultar o acesso a pagamentos por cartão.

Por resolver continua, por exemplo, o que fazer com o lixo da ilha, ou com o muito que chega nas correntes -- as praias estão muito sujas com lixo, predominantemente plástico, transportado pelas correntes.

Soma-se a burocracia de quem tem constantemente de se deslocar a Díli para tratar de renovar licenças, pagar impostos -- o que só pode ser feito no banco na capital -- ou para tratar de vistos ou outra documentação.

A complexidade e a demora do sistema nem sequer garante que tudo se consiga tratar rapidamente, o que prolonga a viagem e os seus custos.

 
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