Taxa turística deve criar mais-valias explícitas

António Trindade exige que a medida seja tratada como um investimento

O CEO do grupo PortoBay foi ao 30.º Congresso Nacional da Hotelaria e Turismo da AHP defender que as taxas turísticas só se justificam se as mais-valias que proporcionam forem bem explícitas.
"Quem paga não gosta de pagar no escuro", referiu António Trindade, sublinhando que para ser "olhada como um investimento" por parte dos empresários do sector, a taxa turística que alguns municípios criaram não pode ser confundida com um imposto. "Eu estou a pagar porque tenho o objectivo de atingir uma mais-valia que depois me vai permitir ressarcir esse investimento. É fundamental olharmos para a taxa turística como um investimento e exigirmos que esta taxa seja efectivamente um investimento", referiu.


O desafio da requalificação

Orador no painel 'Desafio Algarve', onde o grupo madeirense tem uma unidade, o PortoBay Falésia, António Trindade deixou vários recados. O primeiro assenta na percepção que investir no Algarve é pensar num retorno de longo prazo, de 20 a 25 anos, e não em cinco, tal como acontece na Turquia.
Lamentou também que estejam a ser criadas barreiras aos turistas, como as portagens virtuais e a impossibilidade de aquisição de bilhetes de comboio sem estar no País e que o ciclo dos produtos e sua requalificação não seja preocupação evidente. Talvez por isso, revelou que no último World Travel Market, em Londres, nas cerimónias de entregas de prémios da relação com a operação, só um hotel do Algarve tenha sido distinguido.
O hoteleiro sublinha que requalificação da hotelaria não é só cuidar do aspecto físico das unidades. É actualizar a gestão do modelo de negócios e ter presente que nem sempre o investidor que é proprietário deve ser o gestor da unidade, adverte, revelando um dado, que 30% das empresas algarvias estejam em falência técnica por confundirem planos. Uma coisa é gerir o investimento, outra coisa é ser proprietário, adverte.
Trindade considera ainda que o Brexit não é problema por si só. Revela que actualmente há mais britânicos a viajar para fora da UE do que para países europeus, mas recusa algum pessimismo instalado em Portugal ao lembrar a resiliência inglesa. "Os britânicos são extremamente fiéis aos destinos", - e o mercado inglês continua a ser o primeiro mercado emissor para Portugal - embora admita que haverá perda de concorrência se a libra desvalorizar e for acompanhada pelas moedas não Euro, beneficiando a Turquia, Chipre e Tunísia. A este factor junta a mobilidade aérea. "Se houver menos companhias a voar haverá défice de acessibilidade", refere.


Governo pede envolvimento dos privados


A secretária de Estado do Turismo ouviu as observações do empresário madeirense e dos restantes intervenientes no painel e pediu mais envolvimento dos privados na gestão do destino Algarve, "o que não tem acontecido", quer na captação de rotas, quer na promoção.
Ana Mendes Godinho julga que o "destino poderoso" na segunda região mais rica do País precisa de todos para vencer desafios. Para esbater a sazonalidade. "Tem havido esforço para haver vida todo o ano mas a taxa de sazonalidade ainda está acima dos 40%" e o segredo é não estar dependente de alguns mercados, referiu. Para gerar confiança e capacidade de acreditar. Para perceber os fluxos, aproveitando o alerta deixado por António Trindade, quando revelou que a procura é inferior à oferta na zona Mediterrâneo. Para ter acessibilidade aérea competitiva, com operações todo o ano, sendo certo que nos últimos anos foram conquistadas 126 novas rotas para Faro, aeroporto que vai crescer. Para diversificar os mercados de origem. Canadá, EUA, Índia são opções. Para implementar um modelo de gestão de transportes públicos. Para satisfazer a necessidade de ter trabalhadores qualificados. Para separar a propriedade da gestão. E até para partilhar influências, descentralizando: "É necessário dar poder à entidade gestora do destino", sublinhou a governante.
O que serve para o Algarve para que se afirme como "um destino de excelência" aplica-se, com os devidos ajustamentos, a outras regiões turísticas do País. Mas há uma transversalidade nas ideias para o futuro que obriga a pensar de forma diferente. Por exemplo, não tardará muito que o Algarve padeça de um problema que exige posicionamento urgente: a falta de água. Não admira que assuma desde já que monitoriza as alterações climáticas, que quer ser a "meca da energia limpa", que pretende desenvolver mais o sector primário e ter uma indústria baseada no mar.

 

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